90

“O que você tem é uma sensação de não-pertencimento”, ela me disse.

Foi a definição precisa de algo que me atordoa diariamente e eu não conseguia nomear, porque ultimamente sinto que palavras me fogem. Ela deu nome exato para aquilo que me faz sonhar quase todas as noites que estou indo morar em outro lugar e assumir outro posto de trabalho. Em geral acordo atordoada e não é raro o dia em que, no próprio sonho, me corrijo e rememoro minha (nova) cidade e meu trabalho. Então desperto, inconformada. Então me culpo por colocar em relevo um sentimento tão pessoal e particular num momento de angústia coletiva.

Eu não pertenço propriamente a lugar algum. Eu tive tão pouco tempo para andar por aquelas ruas e sentir aquele calor bem-vindo. Depois de menos de um mês vim cumprir a longa temporada de isolamento na cidade vizinha, onde cresci mas com a qual não me identifico. Há uma semana voltei a meu apartamento, fechado há mais de um mês, e encontrei tudo no lugar, todos os móveis e o chão cobertos com a poeira vermelha ribeirãopretana. O piso ficou cheio das marcas de meus sapatos.

Antes de fechar a porta, olhei para a sala, para a estante lotada de livros e o sofá novo que não tive muita chance de usar. Respirei fundo e pensei: vou voltar, sei que ainda vou voltar.

89

Não sei se deveríamos, mas estamos nos permitindo sonhar e fazer planos para o ano que vem. Tem sido bom vislumbrar algo além dessa situação horrível e da decepção (seria mesmo decepção ou horror? Desalento? Não sei qualificar) de viver nesse país sob o governo de um indivíduo inepto, claramente psicopata e irresponsável.

Sonho com outros ares, com cafés, mesas na calçada e sonho em me sentar e ouvir outras vozes e ver o movimento passar, permitindo-me o luxo de esquecer de tudo o mais. Outras músicas e outros calçamentos sob os pés. Talvez justamente a possibilidade de enxergar adiante em uma tarde aborrecida e quase gelada de domingo nos ajude a suportar o excesso de realidade e tempo presente a que temos sido submetidos.

88

Já são duas semanas de isolamento. Saí de casa para ir à padaria, devidamente mascarada e em horário supostamente mais tranquilo, só pra comprovar mais uma vez que as pessoas estão dando uma banana para a necessidade de isolamento, aqui na cidade. Há confirmação de apenas três casos e há também o importante fato de que os cidadãos daqui, em sua maioria, votaram no candidato que acabou por ser eleito. Mitômano e mentiroso, se considera ungido, e assim talvez devam se considerar seus eleitores – protegidos por seu Deus.

Estou ouvindo um dos membros da equipe técnica reunida pelo Governador do Estado dizer que ficar em isolamento é difícil. Sim, é difícil. Já falei sobre isso. O desafio é estabelecer uma rotina, não deixar os pensamentos intrusivos e a inércia tomarem conta. Ontem, por exemplo, tomei sol, bebi vinho à beira da piscina, entrei na água. Estou quase acabando o segundo livro em duas semanas. No sábado fiquei uma hora trabalhando, só para adiantar alguns assuntos da revista. Estou com vontade de sair até a farmácia mais próxima e comprar tinta de cabelos, porque não suporto mais minha aparência nesses dias. Mais tarde vou sair para a rua isolada do condomínio para mais um treino de corrida. (enquanto escrevo o isolamento está oficialmente prorrogado por mais quinze dias, nas terras paulistas. Que sorte a nossa, lamento pelos catarinenses)

É só uma rotina, eu repito para mim mesma. Como qualquer outra. A diferença é apenas que não posso e não devo sair de casa, a vida dita normal está em suspenso e a maioria de nós tem (ou deveria ter) medo.

87

Mais de uma pessoa pode vir e me perguntar “você sente saudade de mim”? Mais de uma pessoa porque o enlevo e a entrega sempre existiram, pra mim, quando alguém entrava na minha vida.

E então mais de uma pessoa vai ouvir, hoje, que “não, não sinto saudade de você. Sinto saudade de mim.” Não sinto saudade de conflito, de engano, de silêncios ou meias palavras, de entrelinhas incômodas, de tédio ou de sentimento de insegurança, nem de frustração. Isso mesmo, eu estou rememorando copos meio vazios. Não vou sentir saudades de quem sabia que meu coração era terreno delicado de se pisar e não respeitou essa condição importante. Sinto saudade de ser a pessoa que eu fui em todos meus dias de encantamento. Sinto saudade dos olhos iluminados que apareciam nas fotografias, sinto saudade da sensação de possibilidade e expectativa, da certeza de futuros coloridos e doces. Sinto saudade de uma certa ilusão que, vista daqui, me parece inclusive patética. Eu sou do tipo de pessoa que se perde em tolices e não tem vergonha de arroubos. Depois que tudo passa, sobretudo se tudo desce pelo ralo malcheiroso por onde vão os finais traumáticos e tristes, sinto-me ingênua, estúpida e sou vítima de uma autocrítica inclemente. Dessa aí eu não sinto falta, ela anda o tempo todo comigo, como a sombra que Wendy costurou de volta ao corpo de Peter Pan.

86

Há quase um ano, pouco menos, eu estava refugiada aqui também. Foram quase dois meses. Eu estava muito doente e achei que estava ficando louca. Eu não saía, eu não trabalhava. As horas se seguiam e se batiam, intermináveis.

Sentada em frente ao computador, pensando no que devia começar a fazer primeiro, entendi somente agora cedo o que está me incomodando: é o retrogosto daquele 2019 estranho e fora do lugar. Ele me assalta e me faz pensar que as coisas estão fora de ordem. Eu preciso mentalizar que agora vivemos uma normalidade diferente. Até porque nada vai voltar a ser como era antes.

85

Sonhei com o Don Draper. Daí você não sabe quem é e não entende o sentido de um fato notável como este. Que pena, eu lamento por você.

Mas voltando. Sonhei com o Don Draper, acordei, voltei a dormir, sonhei de novo. Éramos um casal, e primeiro procurávamos onde morar. Depois procurávamos emprego. Na segunda vez (os detalhes quase me escapam) eu escrevia a ele pelo celular e perguntava detalhes específicos de uma promessa de emprego que, segundo ele, me faziam. Menos mal, ele me respondia. Só que eu não ficava satisfeita com a resposta. Algo ali estava errado.

Então tive um lapso de consciência durante o sonho. Lembrei que o sonho tem um valor simbólico: claro, Don Draper não existe (quer dizer, existe, provavelmente há muitos Don soltos por aí. Você me entendeu). E acordei. Consegui, no sonho, decidir acordar – talvez estivesse, na realidade, próxima do despertar.

Quando acordei, o insight: meu subconsciente foi na realidade legal comigo. Colocou o Don ali como substituto, pra não me provocar mal estar, rejeição, incômodo.

E eu acordei.

84

As hordas de calouros andando pelo campus, sempre em grupos, identificados por uma bandana ou boina ou qualquer outro acessório de acordo com o curso, me fizeram pensar sobre o verão em que eu mesma ingressava pela primeira vez em uma universidade. Comparei minha versão de quase 18 anos com a versão de agora, 26 anos depois. Rememorei o flerte com o moço de olhos azuis claríssimos que aplicou provas na minha sala e rapidamente rememorei também o que me parecia ser uma sucessão de muitos dias ensolarados que duraram anos – será que pra todo mundo a juventude é sintetizada pela memória de dias dourados?

O rapaz de olhos claros se tornou meu namorado por praticamente quatro anos, num mundo que ainda dependia dos telefonemas e das cartas manuscritas para que duas pessoas se comunicassem. Expectativa, paixão, ansiedade, quilômetros e quilômetros de folhas de papel escritas frente e verso e de rodovias percorridas. Todas as descobertas do mundo.

Sonhei que o reencontrava (não faço ideia de onde ele está agora) e que ele tinha um filho com os olhos iguais aos dele. A essa hora da manhã os detalhes me fogem, mas permanece a saudade de quem eu era, acordando cedo e caminhando até a sala de aula, com um mundo de possibilidades se desdobrando à minha frente. Penso na vista do céu colorido que escurece enquanto observo a cidade da sacada muito alta: são os finais de tarde mais bonitos que vejo em muito tempo e à minha frente luzes das ruas e casas se acendem enquanto renovo minhas expectativas e respiro fundo.